terça-feira, 27 de agosto de 2013

OLHARES

          
Observei teus olhos baixos buscarem o chão
As rachaduras dos caminhos, os lixos mundanos sujando a calçada
Limpando o mundo por trás das lentes que não podiam tapar mais tua solidão
Os olhos jogados em cavernas ao chão, em busca de lágrimas que jamais caiem

Lembrei-me, da cor de todas as coisas que só dissemos no escuro
Quebrando um muro, um mundo inseguro de ambos os lados, medos que se esvaem
Todas as palavras ditas, engolidas em tragos, apenas com um luar fago na janela
Observando atentamente a nossas tolas máscaras, que uma a uma caiem

Cantei, pelo mal espalhado em teus ombros, pela dor de teus punhos ternamente cerrados
Sonhando apenas em livrar-te da dor que aperta os olhos, do cantar pousado e cansado
Observando novamente teus olhos sempre cálidos, caindo sempre  em vidro estilhaçado
Caindo sempre, em contradição de sons e estados, do pesar de sempre apedrejado

Voltei, pelo rumo antigo do horizonte, desabando em teus estágios
Acordando de um sonho doce e ofegante, de um olhar contagiante
Fitado em pálpebras fechadas, em noite calma, em teus pesares sábios

Observei novamente teus olhares, que em dia infante brilham como mata,
 Porém em dias tão errantes, com olhos metálicos em luz de prata,                                                      
Não se livram de instantes, de caírem viciantes, de pousarem na dor tão tenaz e calejada
De novo caindo, no erro constante, da dor sem crença em uma nova caminhada.




sexta-feira, 16 de agosto de 2013

CRESCIMENTO



Crescia amarrotada, sozinha atada em nós
Apertada em cós, sufocada pela etiqueta
Eis que Rodando na fortuna do parque a sós
Em madeira queimando encontro a folha seca

Borrando o amadurecimento pintado em nós
No gosto madeira, no sabor de noz 
A inocência no amor e a velhice algoz
O crescimento em conjunto trocando em brincadeira
Crescendo e tocando, em jazz, violão e voz 

Um dia fui idosa, trotando tuas desilusões com desprezo
Em alma rancorosa, de dor e cicatriz ardendo em medo
Mercantilisamos as dores, trocando platonismos
Dividimos os abismos, curando as palavras febris 
de nossas dores, de nosso ninho

Ouvindo o som em Castelinho, subindo a mata em cores que nos rodeia 
Apagando levemente a dolorosa ideia, de sempre estar sozinho

Eu que quis voar longe do ninho, querendo encontrar algo que não sei
Como arcano tolo caio no caminho, catando todos os cacos que deixei
No crescimento unido ao teu me desatino, vendo o que já encontrei
Que somos som, menina e anciã, que não preciso além da voz, de uma maçã
E mesmo em solidão me ponho sã, na companhia de quem chamo de irmã.

FILHO DO SOL(M)






O filho do sol rugiu em partida, para além deste monte

Subindo além de um Abril, voando além do horizonte
O filho do sol partiu, pois seu coração é nômade
É voraz e expansivo demais, a atravessar estrada e ponte

Viaja distante deste horizonte, no nascer de um sol além
Violando pelo bem, dos ares que encontra, das notas que tem
Viaja além desta ponta, desta porta para outra alvorada em ginseng
O filho do sol em sua caminhada, acordando com a luz inebriada
Pintando a luz que há além

Ferindo em cordas o som, que ilumina a luz em qualquer estrada
O filho do som em alvorada, colorindo a manhã opaca de polkas e fados
Degustando novos traços e tragos, de melodias mais vivas 
mais tintas e urucuns do que o senhor pode estar acostumado.

o filho da mata de oca em oca, que chega a disputa além da derrota, 
no lar do inimigo de outrora, que um dia desoca o lar 
daquele ancião que foi lhe dar o tom, e chega rugindo com seu ar jargão, 
unindo as estradas em ligadura de som.

O filho do som encontra o sol na alvorada
Na manhã viva n'outra estrada, o cidadão do mundo 
Dono do segundo, encontra o sol, clareia o fundo
Reunindo a luz de toda e qualquer caminhada

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

SEM NOME, SEM LAR, SEM RECHEIO




Cansada, exausta, perdida, fria
Já não conto mais os dias, horas ou meses
já não alivio o choro em nada, sem cigarros a fumar
Sem doses a afogar, sem memórias pra apagar

Friamente aprendi a te ocultar em um canto opaco da mente
Enquanto cuspo cegamente nos sinais que o mundo atenta em me doar
O que sou? Um trapo velho que se experimenta em dia frio,
que é jogado em um canto na nova alvorada, um tom perdido no vazio. 

Já sem relógio, me perdi em caminhada, trancafiada em meu próprio desespero,
desesperada ansiando pelo erro, sentindo o peito sofrido pela dor enraizada.
E eu que já levava tanto peso, amplificando o vão que parte desde o seio, 
me destruindo no anseio de encontrar a paz que a tanto foi deixada.

Só quero a luz que entre as árvores dançava, a flutuar tão leve em sutileza
Só quero a paz distante de toda a tristeza, que só é real com engrenagem desligada.
Leve-me embora deste caos, oh doce fada, tão afastada da cacofonia errante
De todo ódio infiltrado no instante, tão poluída a emoção que dói o peito
Aliviada em doce trago sem direito, seguindo errada para o vício em dor trancada.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

SOBRE SAUDADES E MAÇOS DE MARLBORO




E no teu corpo me encontrei de novo, em cada trago e tom roco
Enquanto negava desejar qualquer toque em meu peito oco
Meu amor que continua intacto, sentia a falta de teu cheiro
Sentir na pele que o desejo, ígneo e confuso, em nada adormeceu
Que das mordidas pela pele senti falta, de cada roçar da tua barba em meu corpo todo.

E como vênus novamente tratada, enquanto o medo que em receio gritava
Por instantes resolveu adormecer, depois do toque, me encontro extasiada
Sentindo a falta do abraço que se perdeu
Algo além de desejo em tua parte, fria e dissimulada
Desconversando o meu olhar que busca o teu

Sem me entreter ou me perder

Em gosto e gozo,
De derreter e arder em  prazer odioso

Sem saber se é alegria, ou se é sofrer
Se é grandioso, ou nostalgia de te ter
Eu quis sorrir, eu quis chorar, matando a sede em lábio teu
Em troca disso, no cigarro a me afundar, trago a palavra que em fumaça se perdeu
Te levantei, enquanto o via se jogar na sarjeta em álcool,  e te amei, mesmo ao me negar em vômito no asfalto, eu me odiei por ser apenas o teu trapo, por não poder te odiar por este ato.

No fim do dia em cemitério eu me mato, cantando em álcool nas cachaças pelas tumbas
Ao libertar-me renascendo deste ato, ao caminhar sozinha em brilho pela rua
E mesmo em dose de carícias que me insulta, só ao cantar eu me confesso o que já sei
Com tons no peito não esqueço de pensar, que ao me doar lancinante eu não errei


Pois mesmo quando friamente vens  negar,  sem duvidar só me entrego, pois amei.

5 de Agosto de 2013, Fernanda Lyra.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Prímulas e Perseidas

Prímulas e Perseidas 


Era uma noite de ventania, e uma madrugada pouco fria ao calor terno de fogueira e cantiga. O leito é a grama de ribanceira, o telhado é o lumiar de cada estrela em quedas de Perseu em chama N’outro lodo além da grama, dentre as folhas mais escuras, eis que uma luz intensa insiste em brilhar, e com flores na cabeça a dama que carrega uma criança em seu olhar volta e desperta, conseguindo observar cada detalhe que os mais sábios deixariam passar por perder os olhos infantes.
Eis que um lenhador de coração calejado como madeira resolve soltar a criança em seus fundos olhares ao contar sobre as moedas enterradas para o guardião da porta na árvore, guardando em seu interior o mais sublime conhecimento sobre a porta por trás de cada árvore, e sobre cada um dos que as deveriam guardar.
Eis que a dama das flores, com lembranças infantis também despertas, retoma a lembrança de uma toca onde em outrora aos possíveis duendes, pedras e flores ela iria deixar. E em um simples recordar, nenhum de pronto percebe que acordam em si mesmos a percepção de algo que talvez ali sempre o pudesse estar, e quem sabe os duendes e os guardiões de cada uma das árvores, que outrora lhes permitiram o observar, novamente despertam.
Dentre a escuridão das árvores e folhas cobertas de sombras, há um brilho repleto de silhuetas e cachos, e sob a treva da noite uma dama de ouro dança com seu vestido dourado, e o bailar de sua saia reluzente é compreendido como um convite para o vento acompanha-la nesta dança entre as árvores.

Eis que a ventania a assobiar, acompanha o ritmo do bailado da dama dourada, que entre o flutuar d’ouro, paira de tempos em tempos para observá-los. Não puderam ouvir o som que dela poderia ecoar, mas puderam reproduzir o tom que ela haveria de deixar com vozes e violão ecoando com o assobio do vento, entre as folhas da grandiosa árvore na qual de tempos em tempos a dama dourada por trás viria a se ocultar.
E prontamente,  outros caminhantes chegam ao gramado, mas a dama de flores e o lenhador hipnotizados pelo brilho dourado e flutuante se impedem de falar a respeito da dama de ouro, que ainda segue sua dança flutuante, e mesmo sem estar distante, nenhum outro caminhante teve a audácia de podê-la enxergar.
Entre o brilhar da dama e das estrelas, na virada do luar, entra o sol com a manhã,  e no despertar de outro dia só sobra a lembrança da presença tão dourada quanto o sol da manhã de uma dama flutuante entre as árvores. A dama das flores e o lenhador, em busca da dama dourada observam a ausência da árvore na qual durante a noite ela parecia se ocultar, e como as prímulas de ouro, e como o guardião de uma árvore na infância, a dama flutuante e dourada não estava a se esconder, e sim a guardar esta outra árvore, que se oculta na relva da manhã, pois de fato, tal como a fada, ela pertence a um outro lugar. 




Desperta então a vontade de reencontrar, de poder perguntar, e de pronto como as flores em sua cabeça, a dama das flores em seu desejo gritante de fugir da sua possível humanidade exclama sem falar no eco de seus pensamentos: “Oh flutuante dama dourada,  poderia além dessa árvore ocultada, uma talvez humana errante perdida em sua caminhada, poderia ela de alguma maneira encontrar, um caminho embora daqui, para além desse outro lugar?"