segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Prímulas e Perseidas

Prímulas e Perseidas 


Era uma noite de ventania, e uma madrugada pouco fria ao calor terno de fogueira e cantiga. O leito é a grama de ribanceira, o telhado é o lumiar de cada estrela em quedas de Perseu em chama N’outro lodo além da grama, dentre as folhas mais escuras, eis que uma luz intensa insiste em brilhar, e com flores na cabeça a dama que carrega uma criança em seu olhar volta e desperta, conseguindo observar cada detalhe que os mais sábios deixariam passar por perder os olhos infantes.
Eis que um lenhador de coração calejado como madeira resolve soltar a criança em seus fundos olhares ao contar sobre as moedas enterradas para o guardião da porta na árvore, guardando em seu interior o mais sublime conhecimento sobre a porta por trás de cada árvore, e sobre cada um dos que as deveriam guardar.
Eis que a dama das flores, com lembranças infantis também despertas, retoma a lembrança de uma toca onde em outrora aos possíveis duendes, pedras e flores ela iria deixar. E em um simples recordar, nenhum de pronto percebe que acordam em si mesmos a percepção de algo que talvez ali sempre o pudesse estar, e quem sabe os duendes e os guardiões de cada uma das árvores, que outrora lhes permitiram o observar, novamente despertam.
Dentre a escuridão das árvores e folhas cobertas de sombras, há um brilho repleto de silhuetas e cachos, e sob a treva da noite uma dama de ouro dança com seu vestido dourado, e o bailar de sua saia reluzente é compreendido como um convite para o vento acompanha-la nesta dança entre as árvores.

Eis que a ventania a assobiar, acompanha o ritmo do bailado da dama dourada, que entre o flutuar d’ouro, paira de tempos em tempos para observá-los. Não puderam ouvir o som que dela poderia ecoar, mas puderam reproduzir o tom que ela haveria de deixar com vozes e violão ecoando com o assobio do vento, entre as folhas da grandiosa árvore na qual de tempos em tempos a dama dourada por trás viria a se ocultar.
E prontamente,  outros caminhantes chegam ao gramado, mas a dama de flores e o lenhador hipnotizados pelo brilho dourado e flutuante se impedem de falar a respeito da dama de ouro, que ainda segue sua dança flutuante, e mesmo sem estar distante, nenhum outro caminhante teve a audácia de podê-la enxergar.
Entre o brilhar da dama e das estrelas, na virada do luar, entra o sol com a manhã,  e no despertar de outro dia só sobra a lembrança da presença tão dourada quanto o sol da manhã de uma dama flutuante entre as árvores. A dama das flores e o lenhador, em busca da dama dourada observam a ausência da árvore na qual durante a noite ela parecia se ocultar, e como as prímulas de ouro, e como o guardião de uma árvore na infância, a dama flutuante e dourada não estava a se esconder, e sim a guardar esta outra árvore, que se oculta na relva da manhã, pois de fato, tal como a fada, ela pertence a um outro lugar. 




Desperta então a vontade de reencontrar, de poder perguntar, e de pronto como as flores em sua cabeça, a dama das flores em seu desejo gritante de fugir da sua possível humanidade exclama sem falar no eco de seus pensamentos: “Oh flutuante dama dourada,  poderia além dessa árvore ocultada, uma talvez humana errante perdida em sua caminhada, poderia ela de alguma maneira encontrar, um caminho embora daqui, para além desse outro lugar?"



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